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Paulo José Cunha é poeta, jornalista, publicitário, escritor e um dos integrantes do Movimento Viva Arte. Nasceu no dia 25 de fevereiro de 1951, no Rio de Janeiro (RJ). Com ascendência familiar piauiense, residiu, estudou e desenvolveu atividades literárias e culturais neste estado. Também cinegrafista amador, classificou-se no Festival de Vídeo de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves (FCMC), além de ter trabalhado como repórter de O Globo, Jornal do Brasil e Rede Globo de Televisão, em Brasília, apresentando o programa televisivo “Bom Dia Brasília”

Qual o seu envolvimento com a cultura?

Sou poeta, escrevo letras de música, sou um consumidor e um realizador na área da cultura, logo, tudo o que se refere à cultura me interessa. Parece-me que até hoje não existe, no Brasil, uma consciência clara sobre o papel da cultura na sociedade, razão pela qual ela é tão negligenciada pelos governos que nomeiam quase sempre politicamente as pessoas que vão cuidar desse setor. É como se fosse um supérfluo dispensável, como se seus realizadores não passassem de malucos delirantes a quem, vez por outra, deve-se dar algum dinheiro para que continuem bebendo uma cachacinha ou usando umas drogas a fim de se tornaram interessantes e nos divertirem com suas diabruras. Raramente se vê a cultura como investimento, como indústria, como expressão da identidade de um povo, como expressão da genialidade pessoal ou comunitária. Por isso, acredito que daí decorre essa visão equivocada de que não se trata de coisa classificável entre as coisas/obras "sérias", como um hospital ou uma estrada. No instante em que se precisa cortar alguma verba, sobra para a cultura. Ou melhor, falta para a cultura...

Como foi para você a experiência de mediar um encontro com todos os candidatos do DF para falarem sobre cultura?

Extremamente interessante, até porque me parece que é fato inédito trazer-se para um campo público, neutro, os candidatos a um governo e fazê-los de público explicitar suas propostas para o setor cultural, assumindo, também publicamente, compromissos com essas propostas, e igualmente com a necessidade da prestação de contas periódica sobre a administração da cultura em sua gestão. Que eu saiba, no Brasil, nunca se viu um candidato ir à praça pública se encontrar com os artistas, intelectuais e agitadores culturais para assumir tais compromissos, ser questionados e praticamente obrigados a se comprometer com as causas mais urgentes e os pleitos mais candentes da comunidade artístico-cultural. Uma pena que um dos principais atores - e talvez o mais polêmico - o ex-governador e candidato (sim, na época era candidato, e pelo visto continua sendo, à sombra da mulher Weslian) Joaquim Roriz não tenha comparecido. Talvez por temer o confronto com uma categoria que sempre lhe foi crítica. Ou talvez por não ter mesmo nada a dizer quando o assunto é cultura. Mas os outros candidatos participaram, deram seu recado. Segue o baile.

Atualmente o governo do DF dá o devido valor à cultura local?


Não, o setor está ao desamparo em vários aspectos, é só ver as carências enfrentadas por quem faz teatro, cinema, música, literatura, artes plásticas etc. É só ver a quantas anda a preservação de nossos tesouros culturais, a começar do próprio Plano Piloto, tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial e hoje sob o risco de perder esse título diante das sucessivas concessões feitas á especulação imobiliária. É só ver como andam nossos teatros. É só ver os desmandos nas leis de incentivo. Além do mais falta uma política cultural, um elenco de medidas e projetos emanados da própria classe artístico-cultural da cidade que deveriam estar sendo implementados e sistematicamente revistos, para situar Brasília no contexto que lhe cabe dentro do panorama cultural brasileiro. Estamos na capital da república, e a área cultural vem sendo tratada como mero apêndice (muitas vezes incômodo) do governo da hora. Conheço um monte de pequenas e modestas cidades brasileiras onde a cultura tem tratamento muitas vezes melhor do que tem em Brasília. Essa realidade precisa mudar.

Em que sentido você acha que o movimento Viva Arte pode ajudar na criação de políticas públicas para a cultura do DF?

Na medida em que confronta os "donos" do poder com os "donos" da cultura, esses que a realizam, que a produzem e que a colocam no centro da atenção. Políticas públicas devem ser "públicas", se me permitem a redundância. Não podem ser apenas políticas "oficiais". Para serem públicas é preciso que estejam sintonizadas com o anseio público, e isso só é possível quando acontece esse confronto com quem faz e por vezes até vive dessa atividade, como é o caso de grande parte dos artistas e promotores culturais da nossa cidade.

Você acha que movimentos com este, que unem a classe artística, são uma boa forma para conseguir espaço?

Claro. Espaço é conquista, não concessão. Ou atravessamos a rua e atingimos o outro lado ou não vamos nunca chegar ao outro lado porque não haverá ninguém pra nos levar até lá. Na área cultural temos de ter a consciência de que cabe a nós a tarefa de furar os bloqueios, botar a boca no mundo e conquistar os espaços. Mas devo ressaltar que é preciso que a classe artístico-cultural do Distrito Federal (como de resto a do Brasil e a do mundo) precisa sair da posição delirante segundo a qual artista é assim mesmo, deve se concentrar na sua arte e deixar os burocratas cuidarem do resto. Isso nunca funcionou, nem com os poetas, nem com os músicos nem com qualquer artista de qualquer tipo de arte. O fato de ser artista não significa que não se deva cuidar do próprio espaço da arte, ocupando posições, firmando políticas, assumindo responsabilidades e definindo prioridades. Ficar no boteco tomando cerveja ou deitado na rede fumando um beque e falando mal do governo nem fazer coisa alguma pra mudar a situação é a melhor forma de deixar que os burocratas, os políticos inescrupulosos e os oportunistas de plantão tomem conta do pedaço. Se vai à carvoaria e volta limpinho é porque está mentindo e não foi à carvoaria coisa alguma. Depois não reclame se alguém foi lá, se sujou e sumiu com o carvão. Como diria o poeta Torquato Neto: "Quem não se arrisca não pode berrar".

O Viva Arte é um observatório da cultura permanente que tem como objetivo mobilizar todas as forças das artes de Brasília, para que juntas possam influenciar nas políticas de apoio e incentivo à cultura no DF. O movimento conta com aqueles que ajudaram e ainda contribuem com o desenvolvimento da cultura na capital federal e não tem caráter político partidário, o seu compromisso é em defesa da arte produzida na cidade.