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Ser mímico tem suas vantagens. Quem depende só do próprio corpo para se expressar é capaz de encantar plateias no Brasil, Inglaterra, França, Alemanha ou EUA sem que a língua seja uma barreira. Foi o que aconteceu com Miquéias Paz. O mímico começou a carreira em Brasília em 1980, se apresentando em teatros de ruas, praças e esquinas. Nestes 30 anos, participou de vários espetáculos como ator, e como mímico já foi aplaudido em vários festivais nacionais e internacionais, em incontáveis cidades do Brasil e em 14 países diferentes. Atualmente, está envolvido no Viva Arte e em outros projetos do Açougue Cultural T-Bone.


Você vive da arte ou tem outro emprego?

Miquéias Paz: Às vezes até faço alguma outra coisa, mas vivo primordialmente disso.

Existem muitos mímicos no DF?

Miquéias: Não, infelizmente só sei de mim e do meu filho. Eu tenho feito uma oficina, desenvolvido um trabalho no Sesi, mas trabalhando com isso só eu e meu filho mesmo.

Há uma união da classe artística local?

Miquéias: As pessoas trocam informações, se congregam, chamam umas às outras para desenvolver projetos, a gente está sempre envolvido um com o outro. Mesmo que de forma não sistematizada, a gente está sempre fazendo atividades em conjunto. Ou seja, as pessoas estão sempre tentando se segurar, se sustentar, sempre procurando um ao outro.

Você acha que movimentos como o Viva Arte, que unem a classe artística, são uma boa iniciativa para lutar por mais espaço?

Miquéias: Com certeza! Tudo que você organiza em conjunto a tendência é ter mais espaço. Isso é inevitável, a união de forças é fundamental.

Há incentivo suficiente para quem produz arte, tanto do governo quanto da iniciativa privada?

Miquéias: O governo vai muito da boa vontade, às vezes tem um governo mais preocupado com a questão cultural e outro não. Nós passamos uma crise danada na época do Roriz, que foi um terror. Comemos o pão que o diabo amassou, ficamos em terceiro plano. Então a gente depende da postura que o governo adota em relação a determinadas situações.

Então vocês tinham que se virar sem apoio do governo?

Miquéias: Exatamente. Felizmente tivemos espaço na esfera federal e também buscamos emendas parlamentares. Alguns parlamentares apoiaram idéias, como o Magela e o Rodrigo Rollemberg, que têm nos apoiado com certa regularidade. O apoio deles acabou meio que funcionando como uma fundação cultural paralela, com receita oriunda de emendas desses parlamentares. Então o movimento cultural busca alternativas de sobrevivência sempre. Independente de quem esteja no poder, seja ditadura militar ou o que for, o movimento cultural sempre tem sobrevivido.

O Viva Arte tem o objetivo de discutir os caminhos da produção cultural no DF. Que caminho você acha mais interessante de ser seguido?

Miquéias: Acho que o principal é sair da mentalidade do evento e ir para o processo de formação e de estruturação. Hoje os programas nacionais de cultura tentam visar isso, ir além de patrocinar um show, uma apresentação ou uma performance. É claro que isso é legal, importante, mas do ponto de vista da formação cultural, você precisa garantir a existência de um processo contínuo, manter um trabalho, não ter que ficar sempre com um pires na mão. Essa é a questão primária, dar condições de subsistência às atividades, ir além do apoio pontual. O evento é só o ápice de todo um processo, ele não é o processo todo, em hipótese nenhuma.

Algo mais?

Miquéias: O movimento tem que sempre pautar, não estar sendo pautado. Temos que, juntos, pensarmos o que queremos, em vez de ver como acontece e decidir o que a gente faz a partir disso.

O Viva Arte é um observatório da cultura permanente que tem como objetivo mobilizar todas as forças das artes de Brasília, para que juntas possam influenciar nas políticas de apoio e incentivo à cultura no DF. O movimento conta com aqueles que ajudaram e ainda contribuem com o desenvolvimento da cultura na capital federal e não tem caráter político partidário, o seu compromisso é em defesa da arte produzida na cidade.