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Amneres é poeta, jornalista, funcionária pública e uma das novas integrantes do Movimento Viva Arte. Licenciada em Letras Clássicas e Vernáculo com bacharelado em Comunicação Social, ambos pela Universidade de Brasília (UnB). Publicou Emquatro (em parceria com três poetas brasilienses, 1985), Pedro Penseiro (novela, 1980), Humaníssima Trindade (1993), Rubi (1997), Razão do Poema (2000), Entre Elas (2004), Eva (2007) e Diário da Poesia em Combustão e Poesia em Tempo Real (2010). Mantém o site www.poesiaemtemporeal.com.

 


Que tipo de ações você acha que o Viva Arte pode encabeçar para pressionar o poder público a dar mais atenção para a arte?

Acho uma ótima ideia o monitoramento das ações legislativas e executivas desenvolvidas em favor da arte de Brasília. Essa foi uma ideia que discutimos na última reunião e que tem todo o meu apoio. Precisamos discutir e apresentar propostas de políticas públicas, minutas de projetos, ideias de ações em favor de movimentos que já têm uma história na cidade e que, por absoluta falta de apoio, acabaram desaparecendo ou sendo totalmente desfigurados, como acontece atualmente com a Feira do Livro e como aconteceu com o Concerto Cabeças. Temos que lutar, também, pela revigoração dos vários espaços públicos da cidade destinados à arte e que hoje se encontram abandonados e/ou em estado de franca deterioração, a exemplo do Teatro de Arena e da Concha Acústica. São só algumas ideias que o movimento pode aprimorar e traçar estratégias de ações em favor desses objetivos.

Você acha que atualmente o setor cultural é suficientemente articulado para construir um movimento sólido em prol da arte?

Não. O setor cultural é desarticulado e, embora existam vários centros de discussão como o próprio Viva Arte, não existe uma articulação entre os vários setores que possa desencadear uma pressão legítima e consequente junto aos poderes públicos. Creio que essa pode ser uma das bandeiras de nosso movimento, o de articular essas várias frentes para construir uma proposta de política cultural permanente em favor da arte de Brasília.

Quais as medidas mais emergenciais que devem ser tomadas pelo novo governo para ajudar o setor cultural do DF?

Creio que essas medidas devem ser propostas pelo próprio movimento cultural de Brasília, em suas várias linguagens artísticas, e acredito que a medida mais emergencial é o Poder Público ouvir os diversos setores e, a partir daí, construir uma política permanente e estratégica para cada setor: literatura, música, pintura, escultura, dança, teatro etc.

Como poeta, qual é sua opinião sobre a atual situação da Feira do Livro?

É desoladora. A Feira do Livro não tem uma cara nem uma proposta consistente de atuação. Sequer tem um orçamento garantido e, ano após ano, o que se vê é uma simples exposição do que já está exposto nas prateleiras das grandes livrarias. Não há reflexão, aprofundamento de discussões, manifestos, oficinas, e para completar o público fica cada vez mais distante do que acontece ali. A mudança para o Pavilhão do Parque da Cidade, neste ano, só piorou essa situação.

Você tem usado muito a internet para lançar seus textos, certo? Você acha que esse é o melhor caminho para escritores que não têm apoio financeiro para publicarem suas obras?

A Internet é uma ferramenta fantástica e minha experiência de dois anos demonstrou ser um caminho viável pelo menos para a troca de experiências e para que o trabalho do escritor tenha um pouco mais de leitores. Tenho construído o livro, poema por poema, ou crônica por crônica, primeiro no blog e, depois de pronto, vou em busca de editora. Já são três livros publicados primeiro no espaço virtural. O primeiro, Diário da poesia em combustão,  foi uma experiência de 180 dias de textos escritos em tempo real, um por dia, sem interrupção. Foi publicado em papel em setembro último, pelo FAC. O segundo, sob o título 50 crônicas de Brasília, em homenagem ao cinquentenário da cidade, também está concluído e atualmente estou em busca de patrocínio e/ou apoio para publicação. Uma verdadeira via crucis para os poetas em geral. E o terceiro, intitulado Poesia em tempo real, está sendo construído no blog e já tem 75 poemas prontos. Vale ressaltar que o processo de edição e distribuição de livros no Brasil é vergonhoso. O escritor fica isolado, não tem financiamento para publicar seu trabalho, e quando consegue uma brecha - a exemplo do FAC - Fundo de Apoio à Cultura do DF -, não tem garantia de distribuição e não chega às grandes livrarias. A situação da poesia, então, é ainda mais devastadora. As grandes editoras só publicam os autores que já têm um nome nacional, consolidado - com raríssimas e honrosas exceções. As grandes redes de livraria, por sua vez, só expõem os títulos já consagrados das grandes editores e mesmo assim em prateleiras escondidas, de difícil acesso, sem visibilidade. Nossa civilização hoje está doente, porque o espaço outrora reservado à pausa para o aprofundamento da reflexão existencial foi transformado em mercado, abocanhado pelo sistema de produção e trabalho da sociedade contemprânea. Uma lástima. O escritor e psicanalísta André Resende, num texto primoroso que li na Internet, sob o título Silêncios e ruídos, descreve muito bem o que acontece, hoje, com o aprisionamento da reflexão pela indústria do entretenimento: "...Todos os espaços são reservas de formação para o mundo do trabalho e da produção. A existência das pessoas mantém-se inteiramente ligada ao tempo de entretenimento e prazer associados ao não-trabalho, como trabalho. Produzir entretenimento tornou-se trabalho. Todas as contradições do mundo do trabalho e da produção - incluindo meditar, orar e sonhar - estão inseridas no entretenimento, no não-trabalho que é trabalho: competição, comparação, senso do jogo, disputa e vitória, viver, sobreviver, substituir. "...Mesmo que o mundo do trabalho e da produção tenha passado de manual e operoso para intelectual e cognitário, o entretenimento continuou crescendo como resposta às questões da existência. Para o entretenimento não há essência, apenas diferença associada ao mundo do trabalho e da produção. Cada vez mais as essências do entretenimento são sexualidade por perversão e agressividade por transgressão. E, daí, variantes assimiladas como civilização adoecida...". (O texto completo pode ser assessado na página do escritor no Facebook). Cabe a nós, artistas e pensadores, fazermos o movimento de resistência e de insubmissão a essa situação. Como dizia Torquato Neto, é preciso - cada vez com mais urgência - "desafinar o coro dos contentes" e encontrar caminhos que nos libertem dessa prisão.

 

O Viva Arte é um observatório da cultura permanente que tem como objetivo mobilizar todas as forças das artes de Brasília, para que juntas possam influenciar nas políticas de apoio e incentivo à cultura no DF. O movimento conta com aqueles que ajudaram e ainda contribuem com o desenvolvimento da cultura na capital federal e não tem caráter político partidário, o seu compromisso é em defesa da arte produzida na cidade.