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O ator, sociólogo e produtor Murilo Grossi é um dos mais novos integrantes do Viva Arte. Nascido em 1964, em Brasília, é graduado em Ciências Sociais e bacharel em Artes Cênicas pela UnB. Participou do Grupo Experimental de Dança da UnB (Gedunb) e estudou saxofone no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos (Tatuí-SP). Em cinema, atuou em diversos longa-metragens, como "Os Normais 2" (2009), "Linha de Passe" (2007), "Primo Basílio" (2006), "A Concepção" (2004), "Brava Gente Brasileira" (1999), "Mauá, O Imperador e o Rei" (1998) e "A Guerra de Canudos" (1996). Na televisão, em seriados, minisséries e novelas como "Caminho das Índias" (2009), Beleza Pura" (2008), "A Grande Família" (2007), "Amazônia" (2007), "JK" (2006), "Carga Pesada" (2005), "Celebridade" (2004) e "O Clone" (2000).

Qual é sua opinião sobre a atuação dos governos mais recentes na área da cultura?

Não tem nem como fazer uma avaliação, porque é uma inexistência absoluta. Primeiro porque não existe nem sequer uma ideia de política cultural, quanto mais alguma coisa no sentido efetivo relacionada à cultura. O que houve de fato nesses últimos 15 anos foi um absoluto descaso com a cultura, e como se não bastasse isso houve também a aparelhagem da Secretaria de Cultura para servir como veículo de corrupção, como um ralo para corrupção. Então se você for parar para analisar, vai encontrar uma terra totalmente arrasada, como se fosse um longo terremoto de 20 anos. E a gente está pegando o rescaldo disso.

O que você achou da escolha de Hamilton Pereira como novo secretário de Cultura?

O Hamilton é a melhor pessoa para esse cargo, a pessoa mais habilitada, absolutamente ética, com preparo, com intenção, com estrutura para fazer isso, com compreensão do que é o valor cultural. Então a melhor pessoa para assumir esse cargo é o Hamilton Pereira. Eu estive na Secretaria de Cultura esses dias conversando com o Hamilton e acho o caminho que ele está propondo é o correto, muito baseado nas políticas que o Ministério da Cultura desenvolveu nestes últimos oito anos. Então eu espero que a comunidade cultural de Brasília compreenda isso e apóie o Hamilton, esteja junto para fazer acontecer.

E como você avalia a atuação dele no governo Cristovam (do qual foi secretário de Cultura)?

No governo Cristovam o Hamilton não conseguiu realizar o que ele poderia ter realizado, ou o que ele queria. O que aconteceu foi que, embora tenha um discurso e uma intenção muito positivos, de valorização da educação e da cultura, na administração do GDF o Cristovam não abriu essa possibilidade, uma vez que ele deixou a Secretaria de Cultura um pouco ao leo para brigar com a Secretaria de Finanças, que tinha muito rombo para pagar e muito problema de gestão. Ele passou o governo inteiro tentando gerenciar os buracos de corrupção, então a Secretaria de Finanças teve muita dificuldade e não abriu para a cultura. Os grandes projetos que o Hamilton propunha tinham a ver com acordo com a Secretaria de Finanças, com a publicação de editais e coisas desse gênero, que levavam em consideração a Secretaria de Finanças abrir mão do ICMS e de qualquer outro tributo para poder favorecer a cultura, e a secretaria não abriu. Então o Hamilton conseguiu fazer pouco, porque a parte econômica e financeira do governo não deixou. Mas governo é isso, é uma relação de forças, de poder, ali dentro você fica lutando. Espero que o Agnelo não cometa o mesmo equívoco.

E como anda a produção cultural brasiliense depois deste longo período sem o apoio dos governos?

Brasília tem um patrimônio e um ativo cultural gigantescos. Basta dizer que sem apoio, sem o Estado participando da cultura, mesmo assim a cidade tem essa proeminência cultural. Isso significa que na hora que o Estado entender a cultura como um patrimônio, como um valor, isso vai explodir. E tem motivos para isso, Brasília é a cidade que congrega o Brasil inteiro, tem um pouco do Brasil todo aqui dentro, e culturalmente isso é muito rico. Sem contar toda a capacidade produtiva de Brasília no cinema, no teatro, na música, nas artes populares. Brasília tem mais quadrilhas juninas do que qualquer outra cidade brasileira. Tem mais do que Caruru. Então qualquer frestinha que você abre isso explode e vai longe. Brasília produziu alguns dos maiores músicos do Brasil, grandes bandas de rock, música instrumental e erudita que é respeitada no país todo. Quando você chega em qualquer roda de choro hoje e fala “sou de Brasília” o povo para para te ouvir tocar. O rock de Brasília marcou uma época. Quando você fala da música erudita de Brasília todo mundo sabe que tem uma formação excepcional, da Escola de Música, da UnB. Ou seja, qualquer frestinha cultural que você abre rende muito mais do que nos outros lugares, e isso sem a presença do Estado. E é por isso que eu moro aqui.

Você é de uma geração que revelou muitos talentos de Brasília para o cenário nacional. Hoje você acredita que é mais difícil aparecer fora de Brasília?

Tem dois lados disso aí. Um lado é que Brasília cresceu muito, não é uma cidadezinha pequena. O DF hoje tem quase 3 milhões de habitantes, uma diversidade muito maior, uma população muito maior, uma demanda muito maior, portanto é natural que boa parte da cultura e entretenimento produzidos aqui sejam consumidos aqui e que isso supra a necessidade dessa produção. Existem vários grupos teatrais, musicais e por aí afora que vivem do mercado que eles constroem aqui em Brasília mesmo. Isso porque a cidade cresceu e consome este produto.

Por outro lado, existe o fato de que, naquele momento, na geração de 80, que é a minha geração, houve de fato uma abertura. Foi o momento em que se teve Pompeu de Souza como secretário de Cultura e Luiz Humberto como presidente da fundação cultural. E eles sabiamente chamaram todo mundo que fazia cultura naquele momento para conversar e estimular. Com isso abriu-se um espaço fantástico. Aqueles grupos de teatro, aqueles grupos de música, todas as iniciativas culturais que se faziam sozinhas, sem apoio, de repente tiveram apoio, abertura e estímulo institucional para fazer. Eu felizmente tive a sorte de fazer parte desta geração, peguei esse rabo de foguete. Agora não há mais esse apoio, e é preciso haver isso novamente. É preciso que o Estado se coloque no lugar do proponente, do estimulante, do órgão que fomente, que dê incentivo, que valorize a cultura local.

E você acredita que o Hamilton vá fazer isso?

Eu tenho certeza que o Hamilton vai fazer isso, e eu espero que o Agnelo tenha a sensibilidade para deixá-lo fazer. Porque isso demanda uma postura de governo que entenda a cultura além do “eu vou lá dar um dinheirinho para eles resolverem o problema deles”, como esmola. A cultura é um patrimônio, uma necessidade. Nenhuma outra área da economia gera emprego e renda de maneira mais vertical que a cultura. Quando você vai fazer um show, você contrata do diretor até o operador de som e o faxineiro no espaço de uma semana, você remunera, cria emprego. Nenhuma outra atividade da economia é tão ágil assim, a cultura é um mecanismo financeiro e econômico muito eficiente. Só que ele não se restringe ao financeiro e econômico, ele vai muito além disso. Ele vai no sentimento de identidade, pertencimento, manifestação, crítica, envolvimento social. Enfim, ele abrange todas outras áreas. Então o gestor público tem que ter essa percepção, sair da ideia que a produção é o empresário pagando o funcionário. Tem um outro lado que é mais complexo mas é mais rico, mais dinâmico, mais interessante, que é a cultura, o turismo. E a gente tem pela frente aí uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, então a gente tem que mostrar serviço. Então tenho expectativa de que o governo Agnelo esteja acessível para isso. A escolha do Hamilton mostra que ele está propenso a ter uma atitude sensível em relação à cultura. O que tem que acontecer agora é nós, da área de cultura, estarmos juntos ao Hamilton para poder apoiá-lo, estimulá-lo, pressionar o governo e a assembléia legislativa para conquistar uma política cultural, desenvolver uma estrutura de Estado para que a gente conquiste um espaço e não volte mais atrás.

Uma das pretensões do Viva Arte é justamente promover um diálogo entre a classe artística e o poder executivo e legislativo para que sejam traçadas novas políticas públicas para a cultura local. Você acha que isso é possível ou é utópico demais?

Acho que dá perfeitamente para acontecer. O Viva Arte, assim como a maioria dos movimentos culturais brasilienses, é um movimento autônomo, independente. Quando o Estado não existe, a sociedade se organiza para fazer e pressionar o Estado. O Viva Arte é uma dessas situações. Só que agora está no governo alguém que a gente espera que tenha sensibilidade para entender isso. Está na secretaria uma pessoa que eu tenho absoluta certeza que pensa assim, que estimula, que promove isso. No dia que o Viva Arte convidar o Hamilton para o debate no T-Bone, ele vai imediatamente. A gente tem que entender que a força política mudou, que o status político mudou, que tem agora pessoas que são iguais a nós, que querem fazer de maneira correta, democrática, justa. A coisa mudou, a expectativa é melhor, saímos de um furacão para um dia ensolarado. Para isso funcionar agora, é necessário a gente manter uma relação de apoio e solidariedade, de trabalho em conjunto, entendendo que ele está lá para nos representar.

O Viva Arte é um observatório da cultura permanente que tem como objetivo mobilizar todas as forças das artes de Brasília, para que juntas possam influenciar nas políticas de apoio e incentivo à cultura no DF. O movimento conta com aqueles que ajudaram e ainda contribuem com o desenvolvimento da cultura na capital federal e não tem caráter político partidário, o seu compromisso é em defesa da arte produzida na cidade.